home

search

Capítulo 10: Queimem o Demônio

  A sala que a dupla foi levada era bizarramente maior do que as outras. Consistia de um domo alto, levando um painel de vidro redondo no topo. Parecia haver água acima deles, o que banhava o c?modo com a luz do por do sol, refletida em cada ondula??o do líquido e dando ao ambiente uma aparência quase etérea.

  Várias grandes mesas mobiliavam o centro, cheias de frascos, tubos de ensaio, Erlenmeyers, Bal?es, e outros diversos utensílios e materiais que Micah n?o reconhecia. Prateleiras e armários estavam contra a circunferência do domo, exceto na parede adjacente à entrada, na qual havia algemas pregadas nela.

  Micah percebeu que aquele lugar n?o condizia com a narrativa de Ezra. Ele n?o tinha nada a ver com a arquitetura das catacumbas e seu interior parecia antigo e abandonado. Móveis antigos se misturavam com novos e alguns utensílios pareciam usados até demais. Era como se o Alquimista Real tivesse pego o laboratório de segunda m?o e o renovado às pressas. Mas a raz?o por trás de um lugar assim já ter existido num ossuário—aparentemente em segredo— era algo que Micah n?o sabia dizer.

  Ele observou seu colega que ainda mancava levemente enquanto eram levados ao final da sala. Um dos ajudantes de Ezra havia suturado a ferida de Ivan quando voltaram, mas, dessa vez, o alquimista sequer deu tempo para ele se recuperar antes de retomar o experimento.

  De repente, palmas ecoaram até o grupo. Ezra se aproximava, seu sorriso mais exagerado que o normal:

  — Parabéns! Meus mais sinceros parabéns! Eu ouvi sobre a artimanha de vocês. Fugindo pelo esgoto, apagando guardas, lutando contra monstros... Mas que... original. — ironizou com gestos hiperbólicos — Uma verdadeira novela de fuga, se me permite dizer.

  O alquimista ent?o p?s as m?os sobre a cabe?a de ambas cobaias.

  — Devo admitir, foi tolice subestimar a determina??o de vocês. Por outro lado... superestimei demasiadamente a sua inteligência.

  Ele recolheu as m?os atrás das costas, se inclinando levemente.

  — Vocês realmente acharam que eu n?o teria contra medidas caso alguém tentasse escapar pela rota mais óbvia possível?

  Ele deu uma risadinha seca e os levou até o final da sala.

  — Hector, fa?a me o favor. — assim que ouviu a ordem, o guarda-costas de Ezra algemou Micah e Ivan na parede — Sabe, desde o momento que saíram da cela, eu poderia ter ativado aquela armadilha. Mas vocês fazem uma dupla t?o boa que quis ver até onde chegariam. Quem diria que no final me ajudariam à eliminar a maldita praga que vinha devorando minhas cobaias.

  — Mestre?

  Ezra virou-se, vendo Victor ofegando discretamente enquanto carregava uma arca retangular de madeira escura — n?o muito maior que a embalagem de um teclado. Ela esbanjava detalhes dourados, e em sua tampa havia um tablete de obsidiana, coberto por runas esculpidas em sua superfície, tentáculos de Prata Viva a lacravam.

  O guarda ajoelhou-se e levantou a arca cuidadosamente em dire??o à seu mestre.

  — Ah, que ótimo, você chegou no momento perfeito, Victor. — Elogiou Ezra, colocando a arca sobre uma das mesas.

  Ele abaixou-se e sussurrou algo à caixa, como se fosse um diretor bancário contando a senha do cofre para o funcionário. A tampa destravou-se com um “click”, os tentáculos retraindo-se logo em seguida.

  Antes de abrir, Ezra respirou fundo, olhando pra cima para admirar a água acima.

  — Vocês deveriam se sentir honrados. — comentou ele de forma solene, abrindo a tampa da arca — Estar aqui, no antigo laboratório de Samkov, e ainda por cima ser sujeito ao orbitoclausto feito pela própria Roselena, a Primeira Alquimista... eu n?o consigo pensar em algo mais honroso.

  O alquimista passou a m?o sobre o estojo de veludo, apreciando o artesanato da textura. Ele retirou um objeto longo e fino de lá, tratando-o com reverência e admira??o quase divinas.

  Quando se aproximou a aparência do objeto ficou mais clara. O instrumento era prateado, e quanto mais se aproximava da ponta, mais fino ficava, diferente da base, que levava uma ampla empunhadura, feita de uma madeira escura com veios violeta. O corpo tinha uma geometria curiosa — n?o era liso, mas tran?ado em espiral, como a coluna de um DNA metálico. O objeto pulsava levemente, o que fez Micah acreditar que era feito de Prata Viva, assim como as trancas.

  — Eu n?o cheguei à explicar pra você, né, Micah? — perguntou retoricamente enquanto pegava um dos vidros de Imagem de cima da mesa — Tem uma analogia bem intuitiva que ensino aos meus pupilos novos...

  Ele abriu o pote, observando o batimento do cora??o marinado em sangue.

  — Eu gosto de visualizar as Imagens como formas da identidade. O Corpo Espiritual seria a cozinha, a alma, o padeiro e o Karma, a massa. Toda a vez que a alma age, o Karma produzido passa por essa forma e “assa”. Depois do cozimento, o p?o delicioso que sai do forno é o que você chamaria de “Eu” — a sua identidade e tudo que a constitui.

  “Quando alguém Desperta, a alma se torna consciente da forma, e pode usá-la para outros objetivos além da identidade. Se a Imagem gostar de seu usuário, ela lhe ensina um “livro de receitas” que vem com seu nome. Isso, Micah, é o que chamamos de feiti?os. Alguns s?o passivos, outros requerem conjura??o ativa, mas isso n?o importa agora.”

  “Mas você já se perguntou o que aconteceria se alguém... possuísse duas Imagens?”

  Assim que terminou sua frase, Ezra apunhalou o cora??o com o orbitoclausto, fazendo seu batimento parar.

  Inesperadamente, o órg?o entrou em combust?o, fervendo o sangue envolta. Até que se apagou de repente, revelando que o cora??o havia se tornado barro.

  O alquimista ent?o retirou o instrumento, que permanecia rígido, mas brilhava incandescentemente, como se tivesse acabado se sair da forja. N?o obstante do esperado, Ezra corria seu dedo sobre o objeto tranquilamente.

  — Vocês já devem saber que o Núcleo Pneumático ocupa o mesmo espa?o do cora??o, e que esse órg?o metafísico guarda a Imagem. Mas, para esse experimento, o Núcleo possui uma impossibilidade fatal.

  “Ele simplesmente n?o tem espa?o pra hospedar outra Imagem.”

  “As duas coitadas colidiriam em um instante e a alma seria aniquilada no processo.”

  O alquimista se aproximou de Ivan, pressionando o dedo contra a testa dele.

  — E aí que entra um órg?o metafísico muito obscuro na Biologia. Somente Roselena de Andamasco conseguiu detecta-lo no córtex pré-frontal e descobrir sua fun??o, nem mesmo um nome ele tem. Basicamente, ele filtra o Karma do Corpo Espiritual, garantindo que a reserva cármica condiza com as a??es, expelindo o excesso através do que chamamos de aura — por isso tomei a liberdade de nomeá-lo de Segundo Alento.

  “Apesar da fun??o específica, ele é anatomicamente muito similar ao Núcleo. Sua adaptabilidade permite que, na presen?a de uma Imagem de polaridade oposta à original, ele aja como um segundo Núcleo.”

  “E é isso que tornará esse experimento possível.”

  Hector, sem qualquer aviso, inclinou e prendeu a cabe?a de Ivan na parede. Ele se debatia violentamente, seus olhos lacrimejavam.

  — N?o... O que cê vai fazer comigo?! Me solta! ME SOLTA!

  Ezra abriu as pálpebras do olho esquerdo de Ivan, mirando o orbitoclausto logo acima do ducto lacrimal.

  — Shh... Acalme-se, crian?a. N?o vou machucar seus miolos... só vou pedir que se movam para o lado. N?o vai doer nada. — Sussurrou Ezra como um pai acalma o filho no consultório do dentista.

  Micah pode apenas olhar com horror enquanto seu amigo passava por um procedimento do qual ele sequer sabia as implica??es.

  — Ezra, n?o faz isso, por favor... Ele é só uma crian?a.

  O alquimista o ignorou, enfiando o instrumento no menino.

  Ivan parou de gritar.

  Ezra foi mais fundo ainda.

  Ivan parou de se debater.

  Ent?o Ezra sussurrou à ferramenta:

  “Liberar”

  O orbitoclausto brilhou intensamente por um instante, antes de voltar ao seu estado prateado. Logo em seguida o alquimista o retirou.

  Ivan estava imóvel, seus olhos olhavam pro nada, era difícil dizer se estava consciente ou n?o.

  Micah sentiu um caro?o na garganta, seus olhos estavam grudados no menino.

  Até que, depois longos e tortuosos minutos... uma lágrima escorreu pela bochecha de Ivan.

  Ele olhou pra cima, vendo o dia tornando-se noite, e murmurou:

  Did you know this story is from Royal Road? Read the official version for free and support the author.

  — Me desculpe, mana. Eu n?o consegui manter minha promessa.

  Todos os orifícios de seu rosto entraram em chamas, e ele come?ou a brilhar...

  E brilhar...

  E brilhar...

  Pela primeira vez em anos, Ezra entrou em choque:

  — ABAIXEM!

  Os guarda-costas se jogaram pra trás de uma das mesas. Ezra se jogou no ch?o e esmagou algo em seu punho.

  Boom.

  Uma luz intensa — cegante.

  E escurid?o.

  ...

  Micah abriu os olhos devagar, como se o mundo ainda n?o tivesse decidido voltar a existir.

  Havia um apito constante em seus ouvidos — alto demais, denso demais — um som que engolia todos os outros. Ele tentou respirar fundo e engasgou com fuma?a quente, áspera, que queimava o fundo da garganta. Tossiu, arfou, e só ent?o percebeu: n?o ouvia nada do lado direito. Absolutamente nada.

  Quando tentou se levantar, o ch?o pareceu girar.

  Uma dor lancinante atravessou seu cranio, como se algo estivesse tentando sair por dentro. Micah gemeu baixo, levou a m?o à cabe?a e sentiu os dedos ficarem molhados. Sangue. Algum ponto do couro cabeludo sangrava livremente.

  Suas pernas falharam.

  Ele se apoiou na parede, tremendo, e ent?o olhou para si mesmo.

  Seu corpo estava coberto de queimaduras — a maioria no lado direito, onde a pele parecia ter sido lambida pelo próprio sol. Partes da roupa haviam se fundido à carne. Por um instante confuso, genuíno, Micah se perguntou se havia morrido.

  Se aquilo era o Inferno.

  A náusea veio como uma pancada. Ele se dobrou e vomitou ali mesmo, expelindo o pouco que restava de seu desjejum, misturado a bile e sangue. O gosto amargo ficou preso na boca enquanto ele erguia o olhar, ainda tonto, para o epicentro da explos?o.

  A fuma?a se dissipava lentamente.

  Por trás dos destro?os, Micah viu um domo azul, pulsante, vibrando como uma bolha prestes a estourar. O ch?o tremia em intervalos irregulares — impactos. Algo atacava a barreira com fúria animalesca. Dentro dela, uma silhueta… humana.

  Era Ezra.

  Em seguida seus olhos miraram na criatura.

  A primeira coisa a se notar era o fato dela estar totalmente coberta em chamas — mesmo n?o estando incomodada com o calor. Tinha quatro metros de altura, e era bípede apenas por conven??o: quatro pernas poderosas a sustentavam, terminando em patas de ave, garras curvas cobertas por escamas negras. O primeiro par ligava-se ao quadril; o segundo brotava da base de uma longa e grossa cauda — como de uma lagosta — mas onde deveriam existir nadadeiras, havia laminas. Urópodes afiados, feitos para dilacerar.

  A carapa?a...

  N?o era obra de qualquer deus.

  Parecia a de um crustáceo, sim — mas também lembrava asas fechadas, placas sobrepostas de escamas duras, como se o corpo inteiro tivesse sido feito para se abrir e destruir. Seis bra?os pendiam de seu tronco. Os dois pares inferiores eram humanos. Humanos demais. Inúteis, fracos, abra?avam desesperadamente as entranhas expostas da criatura, segurando vísceras incandescentes para que n?o escorressem ao ch?o.

  A esquerda era fina e longa, perfeita para perfurar.

  Em oposi??o, a direita era robusta e grossa, feita para esmagar.

  O rosto fez o est?mago de Micah revirar.

  A boca era de lagosta, ladeada por antenas gigantescas — t?o longas quanto o próprio corpo — flutuando no ar, desafiando a gravidade. Do nariz para cima, havia algo humano. Um eco distante, distorcido.

  N?o o suficiente para ainda ser Ivan.

  A fera golpeou o domo mais uma vez, e ele resistiu.

  Olhou pra cima.

  Ele abriu suas longas asas com um estalo seco, flexionando suas pernas.

  A decolagem foi brutal, lan?ando tudo pra longe com uma onda de choque. Seu voo era violento, como se cada batida de asa tivesse espancando o próprio ar, obrigando-o a segurar esse colosso que nem ao menos pular deveria ser capaz.

  O painel de vidro no topo do domo se estilha?ou com facilidade vergonhosa. água despencou como chuva violenta, misturada a cacos reluzentes.

  Micah pode apenas olhar.

  Como sempre.

  Enquanto o que restava de Ivan voava para longe.

  O nó em sua garganta apertou até doer. Mas ent?o ele percebeu: Ezra e seus guarda-costas ainda estavam presos nos domos azuis. E, se ainda estavam presos… ent?o n?o tinham controle para desativá-los.

  Ficar lá significava a morte certa.

  E Micah sentia-se um lixo, mas aproveitar o sacrifício involuntário de seu amigo era a melhor op??o que ele tinha agora.

  Fugiu discretamente pela porta, se misturando na pequena multid?o de funcionários e aprendizes, preocupados demais com Ezra para o notarem.

  Inesperadamente, enquanto tentava encontrar o caminho de volta para o esgoto, encontrou uma escadaria de pedra com uma porta velha no topo. Quando subiu, empurrou um móvel que bloqueava a entrada pro lado, e se deu conta que estava em algum tipo de adega.

  O al?ap?o do outro lado do por?o levava ao quintal de Ezra. Ele saiu sem qualquer resistência.

  Mas à que custo?

  Antes mesmo de come?ar a se culpar, Micah pulou ao ouvir uma explos?o na distancia. Ele se escondeu entre duas casas, dando uma olhada na dire??o do impacto. O lugar era como uma tocha em meio à noite, pintando o ar ao seu redor de laranja.

  Gritos estridentes podiam ser ouvidos por toda Füllhorn.

  Pessoas queimadas vivas, sufocadas dentro de suas próprias casas, desmembradas e esmagadas.

  Micah via tudo.

  E no centro disso tudo, estava a abomina??o que Ezra fez.

  Os olhos do ruivo lacrimejaram e ele quase vomitou, mas nada restava em seu est?mago.

  Ele viu uma mulher se arrastando pra fora dos destro?os de uma mans?o — uma empregada, pelo uniforme.

  De repente, algo veio de cima do que restava da constru??o, se enrolando em volta da mo?a e a levando-a a sua frente. A antena flamejante do monstro apertava ela violentamente, sua roupa e corpo queimavam enquanto sentia que seus ossos cederem.

  — N-N?O, POR FAVOR N?O! SOCORROOO! — Gritou entre berros que rasgavam suas cordas vocais de t?o intensos. Lágrimas corriam livremente por seu rosto enquanto se debatia inutilmente.

  A criatura gigantesca ent?o aproximou a ponta pontiaguda da outra antena a boca dela. A antena ent?o abriu-se como a casca de uma fruta podre, revelando um apêndice gosmento que se assemelhava à um sanguessuga mutante.

  E a boca se aproximou.

  E aproximou...

  Até que, como se tivesse materializado do nada, um vulto surgiu entre eles, e freou, revelando o mesmo homem loiro de olhos distantes que Micah viu no dia de sua apari??o neste mundo.

  Assim que pousou, ambas antenas já estavam cortadas ao meio, as partes decepadas extinguindo-se e murchando como bexigas, seu sangue azul jorrando para todo lado. O grito do monstro — se é que poderia ser chamado disso — assemelhava-se mais à um garfo arranhando um quadro negro do que qualquer som que um ser vivo poderia produzir.

  Mesmo de longe, Micah já sentia que seu ouvido esquerdo perderia a audi??o também.

  O homem loiro n?o parecia afetado por isso, e pegou a dama cadente facilmente, entregando-a à algum outro soldado antes de retomar a batalha.

  O ruivo ent?o cessou de admirar o espetáculo trágico à sua frente.

  Sua única prioridade agora era sair daquela cidade.

  E sobreviver tempo suficiente para lidar com o que havia restado dele.

  Mas, ao tentar dar um passo, era como se... o movimento tivesse vindo antes da ordem?

  Algo estava errado.

  Seu batimento estava fora de ordem, seus pensamentos estavam embaralhados, sua vis?o estava atrasada.

  Ele se apoiou numa parede, seu corpo estava pesado. Ele tinha perdido todo senso de equilíbrio.

  Até que seu corpo parou de responder, e ele desabou no ch?o.

  Micah ouvia passos longe e perto ao mesmo tempo, e olhos lilases invadiram sua vis?o. Ezra se abaixava, observando o estado miserável do ruivo.

  — Pobrezinho... O neném ficou todo queimado, n?o é? — Ezra arrulhou. Era difícil para Micah dizer se era deboche ou preocupa??o naquele estado. — Mas isso n?o é bom, n?o é nada bom. Afinal, você foi responsável por esse caos, e os responsáveis sempre saem ilesos.

  O alquimista pegou um cristal azul, colocando sobre uma das palmas de Micah e esmagando-o entre seus dedos moles. Micah ainda estava desorientado, mas sentia um calor reconfortante espalhando por seu corpo, sua dor diminuindo. Depois de alguns segundos pode até voltar a escutar pelo ouvido direito.

  Ezra fechou os dedos com cuidado, como quem sela um pacto.

  — Pronto. — disse baixo. — N?o queremos que você morra antes da hora.

  Micah tentou falar, mas a língua pesava como chumbo. O calor que antes confortava agora parecia colar sua consciência ao corpo, impedindo-o de fugir para o escuro. Ezra sorriu, satisfeito com o resultado.

  — Levem-no. — ordenou. — O povo está… ansioso por respostas.

  Enquanto era arrastado, a última coisa que Micah viu antes de perder a consciência foi o cadáver dilacerado de seu antigo amigo, que agora será lembrado como nada mais do que um monstro.

  ...

  Uma pedra acertou seu rosto.

  N?o forte o bastante para quebrar um osso — só o suficiente para acordá-lo.

  O impacto seco estalou contra sua bochecha, e Micah abriu os olhos com um gemido abafado, a vis?o turva, o gosto metálico de sangue na língua.

  Antes que pudesse entender onde estava, o mundo gritou.

  Vozes. Muitas. Sobrepostas. Histéricas.

  Algo acertou seu ombro. Depois o peito. Depois a testa.

  Restos de comida. Esterco. Um rato morto que explodiu contra seu torso e escorreu quente. Tijolos. Qualquer coisa que m?os encontravam no ch?o virava projétil.

  Ele tentou se mover.

  N?o conseguiu.

  Cordas grossas mordiam seus pulsos e tornozelos, prendendo-o a uma estaca áspera. A madeira arranhava suas costas nuas a cada espasmo involuntário.

  Tentou gritar.

  Nada saiu.

  Algo estava enfiado em sua boca — um pano imundo, inchado de saliva e sangue seco. Ele engasgou ao puxar o ar, o panico subindo rápido demais.

  Só ent?o seus olhos conseguiram focar.

  Estava na Pra?a Jardim do Mérito.

  Bem no centro dela.

  E, ao redor dele, um mar de rostos.

  Homens. Mulheres. Crian?as empoleiradas nos ombros dos pais. Velhos cuspindo ódio com dentes faltando. Ricos e pobres, lado a lado, unidos por algo raro.

  Desprezo absoluto.

  — QUEIMEM O DEM?NIO!

  — VOLTA PRO INFERNO!

  — ASSASSINO!

  — DESGRA?ADO RUIVO!

  — MIGRADOR DE MERDA!

  — ESSES INGRATOS S?O TODOS IGUAIS!

  As palavras n?o eram só som — eram pedras também. Cada uma acertava mais fundo que a anterior.

  De repente, o caos cessou.

  Micah olhou pro lado, alguém estava em cima de um púlpito improvisado.

  Era o vigarista de olhos lilases.

  Seu manto estava chamuscado, rasgado de forma estratégica. Um curativo falso adornava sua testa. Ele esperou o silêncio cair — e caiu rápido.

  — Cidad?os de Füllhorn… — come?ou, com a voz pesada de falsa exaust?o. — Hoje, nossa cidade sangra.

  Ele apontou para Micah.

  — Este homem. Este Desperto instável. Um receptáculo de Karma negativo t?o denso que distorce a realidade ao seu redor.

  Um murmúrio de horror percorreu a pra?a.

  — Dei-lhe abrigo. Dei-lhe tratamento. Tentei salvá-lo. — Ezra respirou fundo, teatral — Mas algumas almas… n?o querem reden??o.

  Ele ergueu a m?o, e aprendizes exibiram cristais rachados, frascos vazios, restos carbonizados.

  — O resultado vocês viram. Um Desalmado libertado. Casas destruídas. Mortes inocentes. — sua voz quebrou no ponto exato — Tudo fruto da corrup??o deste Migrador descontrolado.

  Algo apertou o peito de Micah.

  N?o era medo.

  Era pior.

  Era a percep??o horrível de que… estava funcionando.

  Eles acreditavam.

  Cada rosto à sua frente acreditava.

  A frustra??o veio como uma náusea quente.

  De ser injusti?ado demais.

  De ser manipulado demais.

  De ser impotente demais.

  N?o só ali — mas sempre.

  Viver usado.

  Morrer descartado.

  Que ironia patética.

  — Pela Lei do Leviat?. — Ezra concluiu. — Pela Justi?a de Edel-Füllhorn. Este homem será purificado pelo fogo.

  Ezra aproximou-se uma última vez. A multid?o n?o ouvia.

  — N?o leve isso para o lado pessoal. — murmurou. — Toda sociedade precisa de um vil?o visível. E você… já estava sem esperan?a mesmo.

  “N?o leve pro lado pessoal...?”

  “N?O LEVE PRO LADO PESSOAL?!”

  O ódio ferveu t?o rápido que Micah sentiu o corpo tremer.

  Se n?o estivesse amarrado, teria enterrado os dedos no pesco?o daquele homem.

  Ezra se afastou.

  Uma tocha foi acesa.

  O calor tocou seus pés primeiro.

  Suave. Quase gentil.

  Depois subiu.

  E subiu.

  E ent?o a dor nasceu.

  N?o explodiu — cresceu, viva, faminta.

  A pele come?ou a arder. A roupa colou ao corpo antes de se desfazer. Seus músculos se contraíram em espasmos inúteis, deslizando dos ossos como gordura derretida.

  Micah se debateu.

  Os olhos arregalados imploravam por algo — qualquer coisa — mas a multid?o só gritava mais alto.

  Ninguém tinha pena.

  Afinal, quem teria empatia por um monstro que matou tantos inocentes?

  Nenhuma palavra jamais escrita poderia descrever o que ele sentia.

  N?o um milionésimo.

  N?o um bilionésimo.

  Nem mesmo o consolo de ver a vida passar diante dos olhos lhe foi concedido. A adrenalina n?o deixava.

  Até que o corpo cedeu.

  A escurid?o veio antes da fuma?a.

  Antes do fim.

  ...

  ......

  Mas que espetáculo.

  Uma performance com direito à uma salva de palmas. Um final satisfatório, eu diria.

  Mas isso está longe de acabar.

  O luxo da morte ainda n?o lhe pertence.

  Você ainda tem muito à me entreter, Micah.

Recommended Popular Novels