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Capítulo 13: Três Corvos, Um Cadáver

  A uniformidade da Floresta Torta perdia for?as conforme aproximavam-se da cordilheira, e o antigo caminho de pedras — o mesmo que Micah seguiu quando veio à este mundo — agora levava à única abertura que aquela barreira impenetrável permitia existir.

  O sol n?o chegava no Vale das Testemunhas.

  A noite prevalecia como um caudilho sobre sua terra, exceto no fim da manh?, quando a vegeta??o da floresta lutava pelo alívio momentaneo que a luz solar provia. A grama era inexistente, substituída por inúmeros e minúsculos fungos que soltavam esporos bioluminescentes em intervalos regulares, deixando uma neblina rente ao ch?o e dando ao local um ar fantasmagórico permanente.

  As árvores eram enormes, com grossas raízes que se enfincavam no solo e nas montanhas como funda??es de arranha-céus. Suas copas eram guarda-chuvas de folhagem titanicos, prontos para abrirem em resposta à qualquer mínimo sinal solar. E seus troncos estavam cobertos por cogumelos redondos, do tamanho de cocos.

  Enquanto tentava se distrair do frio intenso daquele lugar, Micah pode ver vagamente, próximo à copa de uma árvore, morcegos empoleirados em galhos, se alimentando de frutos que pareciam peras alongadas. Ent?o sentiu sua boca secar.

  — Porquê n?o trouxemos nenhum cantil mesmo?

  Sorfeu fez um som de peido com a boca.

  — Cantil pra que?

  Ele ent?o arrancou um dos cogumelos redondos de um tronco e cortou o topo fora com uma fa?a, entregando-o para Micah.

  O fungo tinha uma textura aveludada, como um pêssego, e seu interior parecia um maracujá sem sementes, carregando um líquido viscoso e dourado que lembrava mel, só que com um cheiro sutil — algo entre menta, manjeric?o e terra.

  O ruivo franziu a testa.

  — é pra eu beber isso? é seguro?

  — Mhm! é Mel?o de Peregrino, pode beber a vontade, é bem refrescante na verdade. — Comentou ele enquanto abria outro pra si mesmo.

  — Só toma cuidado pra n?o comer o cogumelo, à n?o ser que queira sentir lava saindo do toba que nem um chafariz! — Disse em um tom mais alto, olhando pra Asáimon como uma crian?a que acabou de grudar chiclete no cabelo do coleguinha.

  Asáimon parou.

  Por um instante curto demais, quase imperceptível.

  Ele n?o olhou para Dennisorfeu.

  Limitou-se a inspirar fundo pelo nariz, como quem conta até três… mas para em dois.

  — …Eu n?o sabia que aquilo n?o se comia. — disse, por fim, ajustando seu pakol negro.

  Sorfeu abriu um sorriso lento, satisfeito demais consigo mesmo.

  — ‘N?o sabia’, ele diz. — Repetiu, rindo pelo nariz. — Parceiro, cê nem esperou eu terminar de explicar e já caiu de boca naquele tro?o.

  Asáimon bufou de forma exagerada demais para ser natural.

  — A descri??o foi inadequada. — respondeu. — “Mel?o” implica ingest?o sólida.

  Micah piscou.

  — Isso… isso faz sentido.

  O monge lan?ou-lhe um olhar rápido, quase desconfiado.

  — Obrigado.

  O bardo gargalhou.

  — A melhor parte foi depois. — continuou. — O silêncio. A concentra??o. Aí, de repente… desespero intestinal.

  Asáimon finalmente virou o rosto.

  — Eu estava… — come?ou, depois parou. — …aprendendo.

  Houve outra pausa.

  — E jamais grite isso na frente do Capit?o. — completou, em tom baixo, antes de caminhar a frente deles.

  O bardo sorriu ainda mais, dando um gole do Mel?o de Peregrino.

  — Tá vendo, Micah? — disse. — Ele n?o fica bravo. Ele arquiva. Que nem um Kratt.

  Micah franziu o cenho novamente, olhando para Dennisorfeu.

  — Kratt? O que é isso?

  Ele olhou para Micah como se tivesse acabado de perguntar quem é a Fada do Dente, até que percebeu:

  — Ata! Quase me esqueci de que você era um Migrador.

  — é só uma lenda antiga sobre pactos demoníacos com uma li??ozinha de moral, nada demais. — Concluiu ele, balan?ando a m?o para dispensar o assunto.

  Micah assentiu com a cabe?a, fazendo o “hm” clássico daqueles que fingem entendimento.

  Ele olhou pro seu cogumelo, vendo um esbo?o de sua reflex?o na superfície do líquido antes de dar um gole. A seiva tinha um sabor sutil, doce e amadeirado, ela descia na garganta com o mesmo efeito picante de um whisky ou licor, só que menos intenso e com uma lembran?a de pasta de dente.

  Como Dennisorfeu disse, era refrescante — revigorante até — mas certamente longe do que Micah esperava. Provavelmente, anos se alimentando de macarr?o instantaneo, pizza congelada e cerveja barata simplesmente tenha dessensibilizado-o à sabores mais sutis.

  ...

  Após doze horas de viagem desde a partida, os quatro companheiros finalmente alcan?aram a Fronteira Norte. Ela se localizava numa clareira, alcan?ando o vale de ponta-a-ponta, e, como se esperaria da primeira linha de defesa contra Kaelor, o lugar era uma verdadeira fortaleza.

  Ignorando o fato de um enorme buraco estar no lugar do port?o.

  A primeira vista, Micah pensou que a muralha fora construída com pedras vermelhas.

  Até que teve a realiza??o horrível de que n?o se tratava de pedras coloridas.

  Era sangue.

  Baldes dele.

  Uma caixa d’água inteira. Talvez mais

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  Coagulado, mas n?o velho o suficiente para feder à podrid?o.

  Aquela muralha era como um bloco de carnaval depois que a festa acaba... e depois que os homens-bomba batem o ponto.

  Suas torres haviam caído, destro?os ladeavam os arredores e havia corpos — muitos corpos — todos despeda?ados ou perfurados por flechas, alguns cadáveres faltavam a cabe?a ou até toda a parte superior do corpo.

  Era um verdadeiro resort com buffet à vontade para as moscas, que ainda aproveitavam para acasalar e botar seus ovos imundos sobre os mortos.

  Aquilo só poderia ter sido um ataque inimigo, mas, qualquer sinal de vida humana... era daquela que n?o respirava mais.

  Nenhum exército.

  Nenhum soldado inimigo.

  Nenhum trabuco.

  O est?mago de Micah caiu ao ver três corvos se alimentando do rosto de um único soldado, brigando pelos olhos macios e suculentos. Mas, dessa vez, ele n?o sentia que iria vomitar.

  Ele ainda evitava o olhar vazio dos mortos — ou a falta dele — e os peda?os de carni?a espalhados, mas era como se, querendo ou n?o, já estivesse come?ando à se acostumar à brutalidade daquele mundo.

  Os cadáveres deixavam de ser pessoas, e se tornavam parte do cenário.

  E isso o apavorava.

  Pois ele sabia — no fundo de sua alma — que isso roeria qualquer resquício mínimo de humanidade que ainda lhe restava.

  Como os vermes que se alimentam da carca?a de um cordeiro, os cupins logo demoliram as paredes...

  E como... Ohoo... Como eu vou gostar de ver sua preciosa casinha de mentiras cair, Micah.

  — O que aconteceu aqui...? — Disse ele, sua voz tremendo.

  Ninguém sabia responder.

  Thonathaniel foi o primeiro a sair do lugar.

  Antes de seguir, pousou a m?o larga no ombro de Micah por um instante breve demais para virar conversa — um gesto automático, quase inconsciente. Depois, lan?ou um olhar rápido para Asáimon à frente, avaliando n?o a postura, mas o ritmo da respira??o. Finalmente, observou a mudan?a de comportamento de Dennisorfeu, sua personalidade leve e irresponsável, agora substituída por uma seriedade profissional.

  Só ent?o caminhou, sem comentar nada.

  E os outros o seguiram em dire??o ao desconhecido, com Micah sendo o último.

  O primeiro som n?o foi um grito.

  Foi o estalo seco.

  Algo cruzou o ar acima deles rápido demais para ser visto, rápido demais até para ser ouvido como deveria. O impacto veio um instante depois — um CRACK profundo — quando a flecha atravessou várias árvores enormes atrás deles, derrubando-as como montes de feno.

  Todos congelaram.

  A segunda flecha veio logo em seguida.

  Ela n?o atingiu nenhum deles.

  Ela pregou o corpo de um soldado ainda vivo à um estábulo desmoronado, atravessando ombro, costela e rocha de uma vez só. O homem n?o chegou a gritar. Apenas ficou ali, suspenso, ofegando em ruídos curtos e animalescos. Antes de vomitar sangue, e morrer.

  — Contato! — rosnou Thona, puxando o martelo às costas.

  — N?o. — disse Asáimon, num tom estranho demais para ser reflexo. — Já é tarde pra isso.

  Micah sentiu um frio na barriga.

  Ele correu atrás de um escombro, mesmo sabendo que essa barreira seria t?o segura quanto o cobertor de uma crian?a se protegendo do escuro. Sua espada curta tremia em suas m?os.

  O vento mudou.

  Ouviram passos.

  Leves.

  Demasiado leves para aquele terreno.

  Da neblina baixa entre os destro?os, uma silhueta distante emergiu.

  Alta.

  Muito alta.

  Arrastando algo pelo ch?o.

  Usava um manto pesado de pele de urso, t?o antigo e gasto que parecia mais uma relíquia do que uma vestimenta. O arco em suas m?os era grande demais para alguém daquela idade — recurvo, escuro, com marcas de uso obsessivo. O capuz estava abaixado.

  E os olhos… estavam cobertos.

  Uma faixa de tecido cinza envolvia-lhe o rosto do alto das ma??s da face até a testa, escondendo completamente os olhos. Ainda assim, sua cabe?a se movia com precis?o cirúrgica, acompanhando cada respira??o no campo.

  Ela parou.

  Virou-se levemente na dire??o de Micah, que bisbilhotava medrosamente por trás das pedras.

  — Você. — disse.

  A voz era jovem.

  Fria demais.

  — Você n?o é daqui.

  Sorfeu engoliu seco

  — E você n?o parece muito feliz em nos ver.

  Ela ignorou.

  — Vou ser direta.

  A garota ent?o segurou o que arrastava pro alto com uma m?o.

  Era um homem, vestindo um uniforme militar com uma capa prateada por cima, acorrentado e sendo pego pelo colarinho feito um gatinho malcriado.

  O nobre tentou gritar por ajuda quando viu o grupo, mas um pano amarrado sobre sua boca só o deixava soltar grunhidos incoerentes.

  Thonathaniel deu um passo à frente.

  — Você tem no??o de que isso viola os acordos da Trégua—

  — N?o tenho filia??o com Kaelor. Sou uma simples civil. — Interrompeu.

  Ela largou o homem com descuido e o arco subiu — n?o apontando, apenas pronto.

  — E se derem mais um passo, eu atiro.

  — Espera. Ent?o foi você que fez tudo isso? Sozinha? — Questionou Sorfeu, fazendo express?o de velho surdo.

  Ela virou o rosto exatamente para ele.

  — Sim.

  A confirma??o n?o teve orgulho.

  Nem culpa.

  — Eles vieram à noite. — continuou. — Enquanto eu ca?ava, levaram todos da minha vila que conseguiam andar. Mataram quem n?o conseguia.

  Dennisorfeu fechou os olhos e olhou para baixo, murmurando algo pra si mesmo.

  O arco abaixou um pouco.

  — Procuro meu irm?o. — disse ela. — Ivan M?ngke. Deve ter passado por aqui alguns dias atrás. Um garoto. Ruivo. Tem as m?os deformadas. é difícil de passar despercebido.

  — Em suma, entreguem-no ou o Margrave morre. — Concluiu.

  Micah sentiu o mundo parar.

  O som distante do vento pareceu desaparecer.

  Ele saiu de trás do escombro, mas ainda segurava nele.

  — Eu… — a palavra saiu sozinha. — Eu conheci um Ivan.

  O corpo dela ficou rígido.

  N?o agressivo.

  Contido.

  — Fale. — disse.

  — Ele… — Micah respirou fundo. — Ele morreu. Em Edel-Füllhorn.

  Silêncio.

  Ela riu.

  Curto e seco.

  — Que blefe patético. — Ela apontou o arco.

  — ESPERA, ESPERA! Eu tenho como provar!

  Os olhos dela cerraram, mas n?o abaixou a arma.

  — Diga.

  Micah engoliu seco, procurando as palavras certas.

  — Eu n?o sei se ele já era Desperto antes de tudo isso, mas a Imagem dele era Exúvia, ele podia... trocar de casca uma vez por dia.

  O arco tremeu.

  — Ele me falou de você uma vez, enquanto a gente planejava fugir. — Continuou. — Me disse que estava ansioso pra te ver de novo... Ele te chamou de “Morceguinha”.

  O arco caiu no ch?o.

  N?o foi dramático, foi pesado.

  Pode-se ouvir um solu?o, como se ela estivesse prestes à desabar, mas a rea??o foi breve.

  Ela deu um passo à frente, o ch?o rachou sob o pé.

  — Quem. — perguntou ela.

  — O Alquimista Real. — Micah respondeu, sentindo a garganta fechar. — Ezra… Ezra Velliphisto.

  Silêncio absoluto.

  Por um instante longo demais, ninguém respirou.

  Ela se ajoelhou.

  A testa tocou a terra fria.

  Nenhum som.

  Quando se levantou, o rosto ainda estava escondido — mas algo havia se quebrado por baixo da faixa.

  — Obrigada. — disse, simplesmente.

  Ela recolheu o arco.

  — Ezra morrerá. — afirmou. — E Luther cairá com ele.

  Deu alguns passos para trás.

  De repente Thona empurrou Micah pro lado.

  — N?o vou deixar.

  Ent?o ele arremessou seu martelo, que girou em dire??o à garota como um boomerang.

  O martelo n?o deveria acerta-la, a distancia e o angulo n?o permitiam. Era pesado demais para isso. Era impossível. Mesmo assim, ele ignorou toda lógica para acertar seu alvo.

  O impacto reverberou por todo vale.

  Mas, quando a fuma?a abaixou...

  Lá estava a garota. Ilesa. Segurando a cabe?a do martelo como se n?o fosse nada.

  Com as duas m?os, ela esmagou o martelo, estilha?ando-o como vidro.

  Thona piscou uma vez.

  Duas.

  — …

  — Esse… — a voz falhou por meio segundo. — Esse era meu bom martelo.

  Silêncio.

  — Eu ainda n?o terminei de pagar ele.

  A arqueira limpou seu manto com indiferen?a, tirando os cacos.

  — Vou deixar essa passar pois me deram informa??es valiosas.

  “Mas se cruzarem meu caminho novamente… n?o hesitarei”

  Ela mirou em dire??o ao céu.

  Primeiro um clar?o breve — branco, antinatural — cortou o ar ao redor da flecha, como se o próprio vento tivesse piscado.

  O som veio depois, um estalo altíssimo, como o tiro de um rifle.

  Ent?o um BOOM t?o violento que fez os ossos doerem.

  A montanha respondeu.

  O vale inteiro rugiu quando toneladas de neve e pedra come?aram a descer como um dilúvio branco.

  O sangue de Micah gelou.

  — C-CORRE!

  — N?o.

  — Huh?!

  Quando o ruivo olhou pra trás, viu que somente ele estava em panico.

  Sorfeu retirou seu viol?o, testando as cordas enquanto os outros ficavam atrás dele.

  — Fica atrás de mim, Miquéias. — Ordenou ele.

  — O que...?

  — FICA LOGO ATRáS DE MIM, CACETE! — Berrou.

  Micah pulou de susto e obedeceu, ficando logo atrás de Asáimon.

  — Cê faz muita matemática as vezes, mano. Só confia em mim e fica quietinho aí. — Disse o bardo enquanto avalanche se aproximava. Faltava poucos segundos pra alcan?a-los.

  Dennisorfeu n?o come?ou com uma melodia.

  Come?ou com um golpe seco nas cordas, grave demais para ser confortável, como se alguém tivesse batido numa porta de metal enterrada na montanha.

  Depois outro.

  E outro.

  O ritmo era poderoso, insistente — n?o convidava, exigia.

  Cada nota fazia o ar vibrar de um jeito estranho, comprimindo o peito de Micah como se ele estivesse respirando água gelada. N?o era alto no sentido comum, mas pesado, como uma press?o invisível empurrando tudo ao redor.

  A neve à frente deles reagiu.

  N?o parou — rasgou.

  O fluxo branco come?ou a se dividir, como se uma lamina invisível tivesse sido cravada no meio da avalanche. A música n?o empurrava a neve para longe, mas a for?ava a escolher caminhos errados, a colidir consigo mesma, a perder coes?o.

  Sorfeu tocava com os dentes cerrados agora. As cordas gemiam sob os dedos, algumas desafinando perigosamente, vibrando além do limite natural.

  Micah sentiu o ch?o tremer e quando a neve assentou…

  Ela n?o estava mais lá.

  Apenas a avalanche.

  Quando entraram na Fronteira, encontraram o Margrave e os soldados presos, mas vivos.

  Ela poupou os que se renderam.

  A miss?o estava cumprida, mas ninguém se sentiu vitorioso.

  Se a invasora quisesse, poderia ter aniquilado todos. Eles sobrevivem exclusivamente por conta da misericórdia alheia.

  E pela primeira vez, Dennisorfeu, Thonathaniel e Asáimon tiveram um gostinho do que significa ser o Micah.

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