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# Capítulo 36: O Pacto
## I. Adeus ao Continente Vermelho
A jornada em dire??o ao País dos Poliedros estava se aproximando de um marco geográfico e emocional. Zack, K, Mira, Lyra e o Garoto estavam atravessando as últimas vilas do Continente Vermelho, uma terra de contrastes brutais e belezas melancólicas. Ao longe, o Garoto observava a vastid?o da floresta carmesim. A milhares de quil?metros de distancia, a silhueta da Cidade Vermelha ainda podia ser vista, uma mancha escura sob o céu onde a lua, em um fen?meno único na Terra, brilhava com intensidade eterna.
Aquele era o lar das bestas mais fortes do mundo, um lugar onde a névoa negra do Vazio n?o era onipresente, permitindo que a vida, por mais selvagem e perigosa que fosse, florescesse. Havia ali uma beleza selvagem que todos, de alguma forma, sabiam que sentiriam falta.
Zack se aproximou do garoto. Em um raro gesto de afeto, colocou a m?o em seu ombro, sentindo a fragilidade e a for?a emanando dele.
— Eu também vou sentir falta — Zack sussurrou, um leve sorriso surgindo em seus lábios. — Mas eu prometo: voltaremos aqui novamente.
Mira observou a cena e sorriu. Ver Zack demonstrar afeto era como ver uma flor desabrochando no asfalto; algo improvável, mas profundamente belo.
— Você deveria fazer isso com mais frequência — comentou Lyra, retribuindo o sorriso.
O Garoto olhou uma última vez para o horizonte, acenando com a m?o em um gesto de despedida para as terras vermelhas.
— Obrigado por cuidar de mim... Pai — respondeu o Menino, sua voz clara e doce.
O mundo pareceu parar por um instante. Os olhos de Zack tremiam. Ele, o Rei do Horror, o homem cuja simples men??o de seu nome fazia os exércitos tremerem, nunca foi chamado de "pai." Suas pupilas, t?o escuras quanto o próprio Vazio, foram subitamente invadidas por uma sensa??o avassaladora de amor, um calor que ele n?o sabia que ainda era capaz de sentir.
Zack n?o disse nada. O silêncio era sua única resposta, mas o jeito como seus dedos apertavam levemente o ombro do garoto dizia tudo. K observava a cena com uma mistura de fascínio e medo. Havia uma família. Zack, filho de um rei, o homem ca?ado pelo mundo inteiro, agora tinha um ponto fraco. Um lugar onde ele poderia cair. E para K, saber que o homem mais perigoso da Terra tinha algo a perder era mais assustador do que sua própria for?a.
## II. Sombras no Vazio
O grupo continuou sua jornada, a vegeta??o vermelha dando lugar a uma terra cinzenta e árida à medida que se aproximavam da fronteira. K, incapaz de conter suas dúvidas, se aproximou de Zack.
— Podemos conversar? — ela perguntou. Zack assentiu levemente. — Quando deixamos o continente, tudo muda. Teremos que usar capuzes e n?o podemos ficar muito tempo na névoa do Vazio. Contato prolongado pode nos deixar loucos.
— Eu tenho um plano — respondeu Zack, mantendo a calma habitual. — Cinco quil?metros daqui, vamos cruzar a fronteira. Vinte e cinco quil?metros adiante, chegaremos à primeira cidade protegida por cristal. Vamos ficar lá por alguns dias para nos reajustar.
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K bufou, cruzando os bra?os.
— Você sempre sabe o que fazer. Isso me irrita, sabe? às vezes me sinto inútil. Deixe o resto do grupo pensar um pouco também.
Lyra, que ouviu a conversa, soltou uma risada ir?nica.
— Eu sei como é, K. Nós também nos sentimos assim no come?o. é normal. Ele é assim.
Mira entrou na conversa, lan?ando um olhar significativo para K.
— Zack n?o te contou, contou, K? Zack passou anos vagando sozinho pela névoa negra. Ele sabe lidar com esse ambiente hostil melhor do que qualquer um de nós.
K parou por um instante, chocado. Ela deu um leve empurr?o no ombro de Zack, como se tentasse testar sua solidez.
— Para com isso! Ele n?o pode ser t?o incrível assim! Vamos, pessoal, ninguém pode...
Antes que pudesse terminar a frase, Lyra e Mira apenas balan?aram a cabe?a em uníssono, confirmando a verdade.
— Droga! O que você é, Zack? Você n?o é humano... — exclamou K, genuinamente surpreso.
Zack deu uma risada curta, divertido com a express?o surpresa de K.
— Loucura n?o me afeta. Muitos dizem que é por causa dos meus olhos roxos, ou porque sou incrivelmente bonito — ele brincou, fazendo o Menino e os outros rirem. — Mas a verdade, K... é por causa da Lua Negra.
## III. O Mistério da Lamina e o Loop
A atmosfera relaxada se dissipou quando o olhar de K caiu sobre a espada embainhada nas costas de Zack. Ela ainda se lembrava da sensa??o de terror que a arma emanava durante o combate.
— Como você conseguiu essa arma? — K perguntou, agora com a voz séria. — Isso me assusta, Zack. Parece vivo.
— Eu também acho. Sempre te disse isso — Lyra concordou.
Mira continuou, com um tom de voz cheio de preocupa??o:
— Nós o selamos uma vez, e mesmo assim voltou para você, Zack. Parece uma simbiose. Você era muito mais feliz antes de aparecer. Parece que essa espada só traz desgra?a.
O olhar de Zack ficou pesado, as sombras sob seus olhos parecendo escurecer.
— N?o lembro como encontrei a Lua Negra...
A revela??o atingiu o grupo como um golpe físico.
— Como assim? — K perguntou, incrédulo.
— Estou sendo honesto. N?o me lembro. Na verdade, n?o me lembro de muitas coisas do meu passado. é tudo muito confuso. às vezes parece que estou em um *loop*. Sinto que algo já aconteceu antes. Eu me lembro de você, K.
K ficou sem palavras, tentando processar a informa??o. Lyra e Mira trocaram olhares cautelosos; eles já sabiam dessas falhas de memória, embora evitassem tocar no assunto para n?o desestabilizar Zack.
— Conversei com a Lyra e a Mira sobre você, K. A verdade é que sinto que te conhe?o de algum lugar. Parece que vivi anos ao seu lado. N?o sei se foi um sonho... uma mulher aparece...
Antes que Zack pudesse continuar, Lyra o interrompeu com um gesto firme.
— Zack, fala sobre isso quando estivermos em um lugar seguro. Olhos e ouvidos est?o por toda parte, especialmente aqui na fronteira.
K sentiu um profundo desconforto. Essa informa??o ficou presa em sua mente como um espinho. Quem era a mulher nos sonhos de Zack? E como ele poderia se lembrar dela se nunca tinham se encontrado antes daquela briga?
## IV. O Perseguidor
O grupo parou abruptamente quando Mira levantou a m?o, sinalizando silêncio. Seus sentidos de ca?adora estavam em alerta máximo.
— Alguém tem nos seguido há alguns dias, Zack — disse ela, com a voz baixa.
— O que vamos fazer? — K perguntou, sua m?o indo instintivamente ao cabo da arma. — Achei que estava enlouquecendo, mas realmente senti uma presen?a.
— Ele quer deixar claro que está nos seguindo — observou Lyra, analisando as pegadas invisíveis na névoa. — Mas ele mantém distancia. Se entrarmos em combate, ele pode escapar facilmente. Ele é inteligente.
Zack olhou para o mapa e depois para a névoa densa à frente.
— A fronteira fica a um quil?metro. Vamos acampar aqui.
K quase gritou de frustra??o.
— Você está louco? Alguém está nos ca?ando e você quer acender uma fogueira e acampar? Vamos atravessar a fronteira agora, é bem ali!
— Calma, K — respondeu Zack, mantendo a voz firme. — Ele sabe que precisa aparecer agora, antes de atravessarmos. A névoa negra do outro lado apagará nosso rastro e tornará a persegui??o quase impossível para ele. Vou entrar em contato e descobrir o que ele quer.
— Você é louco! O garoto está aqui, Zack! Por que você quer entrar em combate?
— N?o vamos entrar em combate — disse Zack, olhando para a escurid?o entre as árvores retorcidas. — Ele está em desvantagem. Somos quatro guerreiros contra apenas um. Se ele quisesse nos matar, já teria tentado. Ele quer algo. E eu quero saber o quê.
O silêncio caiu sobre o grupo. Contra a vontade de K, eles come?aram a montar acampamento. A fogueira estava acesa, projetando longas sombras dan?antes contra a névoa que se aproximava. Eles se sentaram ao redor do fogo, a tens?o palpável no ar, esperando que a sombra que os seguia finalmente decidisse mostrar seu rosto.
**FIM DO CAPíTULO**

